PENSAMENTO
MÁGICO VERSUS PENSAMENTO CIENTÍFICO
José Pinto de
Queiroz Filho
O pensamento mágico é o precursor das teorias científicas
As superstições fazem parte do pensamento mágico
As superstições fazem parte do pensamento mágico
“Há que lembrar que a busca pelo conhecimento e pelo domínio da Natureza começou com a Magia, na Pré-história. A Mitologia é uma explicação do Universo, da criação do mundo, dos fenômenos da Natureza, etc., através dos mitos, que são narrativas envolvendo heróis sobrenaturais, criaturas malévolas e deuses. Desta forma, é precursora das teorias científicas. Segundo o pensamento mágico, o Universo seria regido por entidades sobrenaturais. O homem acreditava que tinha de invocar o favor dessas entidades para obter o que necessitava para sua sobrevivência.” (http://www.fisica-interessante.com/aula-historia-e-epistemologia-da-ciencia-5-historia-da-epistemologia-2.html).
Na história da humanidade, por milhares de anos, quem explicava os fenômenos naturais era o pensamento mágico [1].
“Por
isso, desde os meteoros ao arco-íris, houve um tempo em que o universo foi
povoado por deuses. (...) A história do arco-íris é um belo exemplo. Que
cortejo de mitos e fábulas ele não inspirou no decurso das eras! A alma dos ancestrais
em festa; o céu ligado à terra por um arco de luzes e cores; a epifânia de
mensagens divinas; o veículo de profecias e recados do além. Que código seria
aquele? O que tem a nos dizer? (...) Então aparece um Newton.Trabalhando dia e
noite nos seus aposentos no Trinity College de Cambridge, concebe um
experimento engenhoso, quase perde a visão ao executá-lo, mas finalmente
consegue mostrar o que ocorre quando um
simples raio de luz solar incide numa das faces de um prisma de cristal e
projeta o seu espectro de cores na parede branca: luz refratada, mistério
domado. (...) Com um singelo par de prismas polidos, Newton enterrou milênios
de fantasias a respeito das causas do arco-íris. (...) ‘Newton destruiu todo a
poesia do arco-íris ao mostrar que tudo se reduz a um prisma’, lamentou John
Keats (...) Íris, a mensageira da deusa Juno que descia dos céus à terra
caminhando por esse arco, levou um tombo fatal.” [2]
FISICALISMO E MENTALISMO
Somente
há dois séculos, com o advento do conhecimento científico, dito fisicalista [3]
em oposição ao mentalista [4],
tornou-se possível explicar os fenômenos
naturais – a existência dos eventos naturais tem a ver com a combinação e
recombinação dos átomos que é a causa universal dos fenômenos observáveis e de
tudo o que acontece, incluindo os humanos e suas ações. Desta perspectiva, entende-se que os eventos mentais são, em última instância, eventos físicos. Sendo assim, “Na teoria da causalidade não há lugar para animismo, forças sobrenaturais ou teleologia; todas as mudanças resultam de mecanismos físicos, e a natureza é um vasto sistema de partículas recombinantes no qual as mãos de ferro da necessidade jogam o jogo de dados do acaso por toda a eternidade.” [5]
A PERSISTÊNCIA DO ANIMISMO
Entretanto, apesar do fisicalismo mostrar-se
auto-suficiente para explicar os eventos do Universo sem a necessidade do sobrenatural, as explicações
mentalistas, de fundamento teleológico, continuam existindo porque o homo sapiens não admite que a sua existência siga as mesmas leis que regem todos os demais fenômenos da natureza. No
meu entender, trata-se do reflexo de uma vaidade irracional de quem acredita ser
uma criação privilegiada de um deus
pessoal que existe somente em função dele. E, veja só que primor de vaidade fátua: é um deus pessoal que foi feito à sua imagem e semelhança. Você, leitor amigo, já parou para refletir como seria este deus construído à imagem e semelhança do homo sapiens?
Mãe Maria Stella
Mãe Maria Stella
Tudo isso veio a baila depois que li um artigo
de Maria Stella de Azevedo Santos Iyalorixá do Ilê Axé Opó Afonjá, e também cronista, bem articulada, diga-se de passagem, do jornal A Tarde. No seu artigo publicado em 18.01.2012, ela discorre sobre o significado das
cores das vestes dos deuses do candomblé. São suas as palavras que se seguem:
"A busca de conhecimento gera um maior entendimento, o que ajuda na diminuição do preconceito e no aumento do respeito. Foi pensando assim que procurei informações com pessoas que entendessem sobre cor, para poder melhor compreender a relação existente entre cada orixá e sua cor correspondente. Foi pensando assim que procurei informações com pessoas que entendessem sobre cor, para poder melhor compreender a relação existente entre cada orixá e sua cor correspondente. Foi dessa maneira que chegou ao meu conhecimento que cor e luz são fenômenos intimamente vinculados. Os objetos não possui luz própria, por isso só se tornam visíveis aos nossos olhos quando um feixe de luz, proveniente de alguma fonte de energia (sol, fogo, luz elétrica), os clareia. Os raios que clareiam um objeto reage absorvendo todas menos uma, que é aquela que ele reflete. É exatamente essa cor não absorvida, pois é refletida, que é a cor que vemos e dizemos ter o objeto. a fim de melhor esclarecer esse assunto, que para mim foi bastante complicado, pode-se dar o seguinte exemplo: uma roupa absorveu todas as cores de uma fonte de luz, mas refletiu apenas a azul, fazendo com que afirmemos que a blusa em questão é azul. (...) A explicação é ampliada quando se quer definir a cor branca e a preta. A primeira recebe todas as cores de uma fonte de luz, não absorve nenhuma delas e reflete todas, sendo por este motivo vista como 'a reunião de todas as cores'; mas sobre a cor branca também se diz que ela é a 'ausência de cor', quando se quer defini-la levando-se em conta o fato de que não absorve nenhuma cor. Já sobre o preto se dizem as mesmas coisas, porém por motivos inversos; o preto é visto como 'ausência de cor' porque não reflete nenhuma das cores advindas da fonte luminosa; considera-se esta cor 'a reunião de todas as cores', no entanto, quando é observado o fato de ter o poder de absorver todas as cores recebidas".
As leis físicas que regem os fenômenos luz e cor
Neste ponto, ela se vale do recurso usual utilizado por líderes religiosos para dar verossimilhança às suas crenças preferidas. Num primeiro momento, usa os argumentos científicos conhecidos e validados por testes rigorosos e reprodutíveis; a seguir, à semelhança de um hábil acrobata, dá um salto no vazio para criar um elo fantasioso entre os dados científicos e o pensamento mágico. São suas palavras textuais:
Divaldo Franco, líder espiritualista
Papa João XXIII -
Partamos do princípio de que existe uma diferença irredutível entre o mundo e nossa experiência deste mundo. Isto acontece porque nós, como seres humanos, não operamos diretamente sobre o mundo e sim mediados pelo pensamento; e o grande propósito do pensamento é o de construir um modelo ou mapa, que não é o retrato da realidade, mas pode, dentro de certos limites, funcionar como um instrumento para entendermos o mundo em que vivemos. Entretanto, por sermos capazes de criar modelos do mundo, não implica que devamos confundi-los com a realidade em si. (BLANDER E GRINDER in A ESTRUTURA DA MAGIA, Zahar editores, 1977, São Paulo, SP)
Modelos do mundo
Convém não tocar num fogão quente
QUANDO O EMOCIONAL SOBREPÕE-SE AO RACIONAL
Homem tu és feito de pó e ao pó retornarás
"A busca de conhecimento gera um maior entendimento, o que ajuda na diminuição do preconceito e no aumento do respeito. Foi pensando assim que procurei informações com pessoas que entendessem sobre cor, para poder melhor compreender a relação existente entre cada orixá e sua cor correspondente. Foi pensando assim que procurei informações com pessoas que entendessem sobre cor, para poder melhor compreender a relação existente entre cada orixá e sua cor correspondente. Foi dessa maneira que chegou ao meu conhecimento que cor e luz são fenômenos intimamente vinculados. Os objetos não possui luz própria, por isso só se tornam visíveis aos nossos olhos quando um feixe de luz, proveniente de alguma fonte de energia (sol, fogo, luz elétrica), os clareia. Os raios que clareiam um objeto reage absorvendo todas menos uma, que é aquela que ele reflete. É exatamente essa cor não absorvida, pois é refletida, que é a cor que vemos e dizemos ter o objeto. a fim de melhor esclarecer esse assunto, que para mim foi bastante complicado, pode-se dar o seguinte exemplo: uma roupa absorveu todas as cores de uma fonte de luz, mas refletiu apenas a azul, fazendo com que afirmemos que a blusa em questão é azul. (...) A explicação é ampliada quando se quer definir a cor branca e a preta. A primeira recebe todas as cores de uma fonte de luz, não absorve nenhuma delas e reflete todas, sendo por este motivo vista como 'a reunião de todas as cores'; mas sobre a cor branca também se diz que ela é a 'ausência de cor', quando se quer defini-la levando-se em conta o fato de que não absorve nenhuma cor. Já sobre o preto se dizem as mesmas coisas, porém por motivos inversos; o preto é visto como 'ausência de cor' porque não reflete nenhuma das cores advindas da fonte luminosa; considera-se esta cor 'a reunião de todas as cores', no entanto, quando é observado o fato de ter o poder de absorver todas as cores recebidas".
As leis físicas que regem os fenômenos luz e cor
Neste ponto, ela se vale do recurso usual utilizado por líderes religiosos para dar verossimilhança às suas crenças preferidas. Num primeiro momento, usa os argumentos científicos conhecidos e validados por testes rigorosos e reprodutíveis; a seguir, à semelhança de um hábil acrobata, dá um salto no vazio para criar um elo fantasioso entre os dados científicos e o pensamento mágico. São suas palavras textuais:
“Nenhuma cor, como nenhuma raça,
tem mais valor do que outra. Cada uma tem sua característica, que corresponde a
sua função no mundo. A cor preta esquenta porque absorve energia; enquanto a
branca esfria porque reflete toda energia que recebe. Como a cor é uma das
formas de manifestação de energia, cada orixá está relacionado a uma ou mais de
uma cor, a depender da essência energética que carrega em si. Oxalá é o orixá
frio que se veste de branco, a ‘cor da luz’, que é assim considerada pelo fato
de refletir todos os raios luminosos, característica que faz com que o branco
possua o máximo de clareza, sendo considerada a cor da ‘Verdade’ advinda da
iluminação. É a cor da generosidade por receber todas as cores, mas não ficar
com nenhuma para si, uma vez que reflete todas. No aspecto espiritual, ordem,
paz, determinação, silêncio, início e renovação. O branco é a cor da pureza que
deve ser buscada por todos. É a cor da paz que sentimos ao ver o cortejo dos
Filhos de Gandhi passar na avenida, ao ver a peregrinação dos devotos de Senhor
do Bonfim e ao ver os baianos vestidos de branco nas sextas-férias e nos rituais
dedicados a Oxalá. Vestir-se de branco, uma vez por semana, para quem pratica a
religião dos orixás é uma forma de respeitar o Grande Pai Oxalá e nos
lembrarmos de todas as características que ele possui, para que possamos segui-lo
na sua jornada de pureza, serenidade, paciência e generosidade.”
GENERALIZAÇÃO: COMO ANALISAR AS
PROPOSIÇÕES DE MARIA STELLA
Uma advertência: 1. Como já disse antes, a estratégia
utilizada por Maria Stella não é exclusiva do candomblé, pois ela é também utilizada
nos argumentos de sacerdotes, líderes espiritualistas e teólogos das diversas procedências.
Partamos do princípio de que existe uma diferença irredutível entre o mundo e nossa experiência deste mundo. Isto acontece porque nós, como seres humanos, não operamos diretamente sobre o mundo e sim mediados pelo pensamento; e o grande propósito do pensamento é o de construir um modelo ou mapa, que não é o retrato da realidade, mas pode, dentro de certos limites, funcionar como um instrumento para entendermos o mundo em que vivemos. Entretanto, por sermos capazes de criar modelos do mundo, não implica que devamos confundi-los com a realidade em si. (BLANDER E GRINDER in A ESTRUTURA DA MAGIA, Zahar editores, 1977, São Paulo, SP)
É possível fabricar modelos de
mundo a partir, por exemplo, da generalização. A generalização é uma forma de pensar na qual as experiências vividas, ou parte delas passam a explicar todas as vivências de uma mesma categoria ou, paradoxalmente, de fenômenos que nada tem a ver com esta categoria.
Exemplificando: é útil saber que ao tocar um fogão quente podemos nos queimar, e generalizar que por isso não podemos tocar em fogão quente. Mas se extrapolarmos a generalização inicial e concluirmos que todo fogão é perigoso e recusarmos ficar no mesmo recinto com um fogão, distorcemos a realidade para atender aos nossos medos e limitamos desnecessariamente nossa movimentação no mundo.
MARIA STELLA: GENERALIZANDO E DISTORCENDO A REALIDADE FÍSICO-QUÍMICA
Observemos atentamente como Maria Stella utilizou a generalização e a distorção nos
seus argumentos:
De início, extrapolou uma teoria
que é específica da luz e da cor, generalizando-a para incluir as noções de igualdade
racial e características do deus Oxalá. O objetivo declarado é o de unir as leis de um fenômeno físico/químico com as crendices do candomblé.
Frieza de Oxalá
Quer dizer, ao tentar relacionar
as características físicas da cor branca com a frieza de Oxalá, a pureza de
sentimentos, a generosidade e a paz “que sentimos ao ver o cortejo dos Filhos de
Gandhi passar na avenida” generaliza para perceber apenas o que ela quer
e deseja, portanto, distorcendo a realidade físico-química, que é inadequada para explicar suas crenças e desejos. Observe, uma coisa nada tem a ver com as outras.
QUANDO O EMOCIONAL SOBREPÕE-SE AO RACIONAL
Na verdade, por mais que a
ciência demonstre que a existência do
homem faz parte e obedece às mesmas leis dos eventos naturais regidos pela combinação e recombinação de
átomos – que é a causa universal dos
fenômenos observáveis e de tudo o que acontece
no Universo, incluindo os humanos e suas ações - ele persiste distorcendo a realidade para construir ilusões tranquilizadoras. Tudo motivado
pela vaidade que sustenta de que é um ser único e o mais importante deste mundo e que tem um deus pessoal que só existe para ele. Talvez o medo da morte e a não aceitação de que irá pura e simplesmente se transformar no mesmo pó de onde veio, obriga o homo sapiens a continuar fabricando ilusões consoladoras e de fundamento teológico. E, acredito, se trata de uma luta permanente que deverá durar enquanto ele existir.
[1]
O pensamento mágico abrange todos os sistemas de magia, inclusive a idéia da causalidade mental, ou seja, a possibilidade de a mente ter um efeito direto
sobre o mundo físico.
[2]
GIANNETTI, Eduardo, A ilusão da alma, biografia de uma idéia fixa, Ed.
Companhia das Letras, São Paulo, SP, 2010.
[3]
O fisicalismo afirma que só o físico
pode agir sobre o físico.
[4]
Os mentalistas acreditam que a mente age diretamente sobre o físico.
[5]
Idem 2.









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